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Vince Vawter: «O Rapaz dos Jornais é a minha história, e por isso aproxima-se mais da biografia do que da ficção.»

Publicado a 21/01/2024, na categoria: Artigos, Destaque, Fábula

Natural de Memphis, nos EUA, com uma carreira de 40 anos na imprensa, Vince Vawter escreveu um belo romance para leitores jovens e adultos, ambientado na sua cidade natal, no final dos anos de 1950. Numa sociedade em transformação, dividida pela segregação racial, a história aborda o fim da infância e o início da adolescência de um rapaz com perturbações na fala que descobre o poder das palavras.

 

Problemas de expressão

O protagonista desta história é um rapaz gago. O Homenzinho, como é carinhosamente chamado pela sua ama negra, debate-se com dificuldades de expressão e arranjou vários truques para ocultar ou contornar a gaguez, sobretudo perante os adultos, que a maioria das vezes demonstram não saber como lidar com a situação. Ignoram, fingem ou apressam o discurso entrecortado, com embaraço ou sem vagar para escutar as palavras que demoram a formar-se.

Sobre a gaguez, o autor afirma na nota final do livro: «É na infância que mais cruelmente se manifesta, dando origem a uma existência solitária e desconcertante numa altura em que o mundo começa a abrir-se e a ampliar-se.»

 

Coming of age

O mundo abre-se para o protagonista, quando ele aceita substituir um amigo durante o verão na entrega de jornais porta a porta. Esta atividade vai pô-lo à prova como nunca antes, já que falar com adultos desconhecidos é um dos seus maiores receios.

À medida que as semanas avançam, o Homenzinho vai conhecendo melhor aqueles a quem entrega o jornal diário, e descobrindo em si emoções novas. O despertar da sexualidade com uma dona de casa com atribulações conjugais, a Sra. Worthington, ou Faye, nome suave, que não oferece muita resistência, caso ele se atreva a pronunciá-lo. O estranho homem do ferro-velho que percorre as ruas do bairro com método e lentidão. O Sr. Spiro, um antigo embarcado da marinha mercante, que faz um uso encantatório das palavras e guarda em casa uma biblioteca com milhares de livros recolhidos nos portos de todo o mundo. Este inesperado amigo com alma de filósofo e poeta irá ter um papel decisivo na transformação da criança em adolescente.

 

Verão quente

Através da interação com estas e outras personagens, com a sua adorada ama, os pais, os amigos, os colegas do basebol, e à medida que a temperatura sobe em Memphis e os acontecimentos se precipitam, o Homenzinho irá atravessar um verão de sobressaltos, que acabará por definir quem ele se tornará.

Quando me acontece fiar preso numa palavra venho da escola e ponho uma folha de papel na máquina de escrever que alguém trouxe há muito do escritório do meu pai e se esqueceu de levar. A mesma em que escreve este texto. Matraqueio as palavras que nesse dia me deram mais problemas. As minhas mãos sabem onde estão as letras e não tenho de pensar em truques para conseguir fazer sair uma palavra. (p. 8)

Publicada em 2013 e traduzida para vários idiomas, esta obra envolvente e profundamente humana, com personagens inesquecíveis, foi distinguida com o prémio Newbery Honor Book, pelo seu contributo para a literatura juvenil. A tradução da edição portuguesa é de Maria Leitão.

 

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Vince Vawter: «O Rapaz dos Jornais é a minha história, e por isso aproxima-se mais da biografia do que da ficção.»

Publicado a 21/01/2024, na categoria: Artigos, Destaque, Fábula

Natural de Memphis, nos EUA, com uma carreira de 40 anos na imprensa, Vince Vawter escreveu um belo romance para leitores jovens e adultos, ambientado na sua cidade natal, no final dos anos de 1950. Numa sociedade em transformação, dividida pela segregação racial, a história aborda o fim da infância e o início da adolescência de um rapaz com perturbações na fala que descobre o poder das palavras.

 

Problemas de expressão

O protagonista desta história é um rapaz gago. O Homenzinho, como é carinhosamente chamado pela sua ama negra, debate-se com dificuldades de expressão e arranjou vários truques para ocultar ou contornar a gaguez, sobretudo perante os adultos, que a maioria das vezes demonstram não saber como lidar com a situação. Ignoram, fingem ou apressam o discurso entrecortado, com embaraço ou sem vagar para escutar as palavras que demoram a formar-se.

Sobre a gaguez, o autor afirma na nota final do livro: «É na infância que mais cruelmente se manifesta, dando origem a uma existência solitária e desconcertante numa altura em que o mundo começa a abrir-se e a ampliar-se.»

 

Coming of age

O mundo abre-se para o protagonista, quando ele aceita substituir um amigo durante o verão na entrega de jornais porta a porta. Esta atividade vai pô-lo à prova como nunca antes, já que falar com adultos desconhecidos é um dos seus maiores receios.

À medida que as semanas avançam, o Homenzinho vai conhecendo melhor aqueles a quem entrega o jornal diário, e descobrindo em si emoções novas. O despertar da sexualidade com uma dona de casa com atribulações conjugais, a Sra. Worthington, ou Faye, nome suave, que não oferece muita resistência, caso ele se atreva a pronunciá-lo. O estranho homem do ferro-velho que percorre as ruas do bairro com método e lentidão. O Sr. Spiro, um antigo embarcado da marinha mercante, que faz um uso encantatório das palavras e guarda em casa uma biblioteca com milhares de livros recolhidos nos portos de todo o mundo. Este inesperado amigo com alma de filósofo e poeta irá ter um papel decisivo na transformação da criança em adolescente.

 

Verão quente

Através da interação com estas e outras personagens, com a sua adorada ama, os pais, os amigos, os colegas do basebol, e à medida que a temperatura sobe em Memphis e os acontecimentos se precipitam, o Homenzinho irá atravessar um verão de sobressaltos, que acabará por definir quem ele se tornará.

Quando me acontece fiar preso numa palavra venho da escola e ponho uma folha de papel na máquina de escrever que alguém trouxe há muito do escritório do meu pai e se esqueceu de levar. A mesma em que escreve este texto. Matraqueio as palavras que nesse dia me deram mais problemas. As minhas mãos sabem onde estão as letras e não tenho de pensar em truques para conseguir fazer sair uma palavra. (p. 8)

Publicada em 2013 e traduzida para vários idiomas, esta obra envolvente e profundamente humana, com personagens inesquecíveis, foi distinguida com o prémio Newbery Honor Book, pelo seu contributo para a literatura juvenil. A tradução da edição portuguesa é de Maria Leitão.

 

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